Sentando no sistema democrático

16December2009 341 visualizações nenhum comentário categoria(s): cotidiano, opinião

Final de ano, pensa a vice-reitora Rocksane em seu gabinete, sobre a morte da bezerra Joana. Tempo de férias na UFMG, na praça de serviços clima “sala de espera” dos filmes, sabe como? Aquele som de bossa nova no rádio bem ao fundo, quebrando o silêncio de ninguém conversando. Um pobre funcionário varre o centro da lona, ou, na realidade, apenas espalha a poeira, já que a preguiça de pegar a pá é grande e dali, os dejetos só saem com pá mesmo, como manda a lei da gravidade. Daí, ainda ela, exclama, sentada na sua poltrona de couro marrom: “que delícia essa poltrona de couro marrom!” e pensa que é um bom momento para se repensar as carteiras da universidade.

Claro que uma decisão dessa magnitude não poderia ser feita sem consulta à comunidade, então logo são convocados o DCE, os colegiados, professores, funcionários, os DA’s e CA’s, até mesmo o DRI foi convocado (mas estava viajando). Sentam-se todos na sala de reunião, e, após uma semana de deliberação, resolvem que o melhor é fazer uma enquete nas faculdades e no site da UFMG.

Todos os alunos receberam e-mails de seus colegiados convocando para a grande votação, mas poucos encontram disponibilidade para deslocar-se até à Academia em tempo de férias e, principalmente, porque a urna só funcionava de 7:30 às 8:15. Na fafich, onde estariam em tese, os mais mobilizados, era ainda mais difícil porque constava na convocação que a urna estaria na sala 3058 e, na verdade, estava na 2094, mas ninguém avisou. Os poucos que acharam a sala não encontraram o funcionário no momento e acabaram desistindo. Já no site, a enquete ficou bem localizada, colocaram uma nota na página inicial, na sessão de notícias. Mas aí tinha que logar no moodle, fazer uma avaliação das carteiras anteriores e só então votar. E aquele pessoal que usa Firefox e até hoje não aprendeu a adicionar uma exceção quando aparece a mensagem de que o site da UFMG não é seguro?

Parece que a Associação dos Obesos, sediada na Nutrição, organizou-se mais rapidamente e o resultado da enquete acabou apontando para carteiras de entrada mais fácil e larga, pois o constrangimento da dificuldade em se sentar, fora as brincadeirinhnas de mal gosto (aquela de levantar quando o gordo senta é clássica!), era duro de se agüentar.

Mal começara a fabricação das novas carteiras, comandada por um grupo de extensão da Arquitetura, veio o primeiro protesto em frente à reitoria: era o CU, Canhotos Unidos, que não aceitou o resultado da votação e alegou que era uma minoria desfavorecida por se tratar de apenas 4% da população mundial. As novas carteiras, que eram de braço, para ampliar a entrada dos obesos, estavam sendo fabricadas apenas com apoio na direita, o que impossibilitava completamente a realização de atividades escritas por parte deles. Queimaram cadernos e lápis. A Reitoria reuniu-se novamente com os grupos iniciais da discussão (menos o DRI, que ainda estava viajando) e reavaliou o projeto, decidindo, por fim que, como os custos de produção aumentariam muito caso uma parcela das carteiras fosse de braço esquerdo, era melhor fazer aquelas carteiras de mesa retangular, separando mesa e cadeira, e assim os obesos ainda poderiam entrar e os canhotos escrever.

Recomeçava a produção das carteiras, ainda com o grupo da Arquitetura comandando e, agora, com o auxílio de um grupo de extensão da Fisioterapia, para auxiliar nas questões de anatomia e evitar que as novas carteiras dessem problemas de coluna aos alunos.

Ficando prontas as carteiras, vários caminhões chegaram para o descarregamento das mesmas. As aulas já haviam recomeçado. Com muito conflito com o 5102, S50 o 9502, e até o pobre do Interno, para estacionar, o processo era bastante lento. Não demorou em cair aquela chuva torrencial, alagar a avenida principal, e, como os caminhões ainda estavam lá na FAE, a água levou tudo, inclusive carteiras que não estavam na história.

Desolada com tal notícia, Rocksane pensou em desistir. Mas era tarde demais. Os grupos socialistas da universidade deixavam cartazes anônimos pela faculdade mobilizando os alunos, que passaram a ter muito mais reclamações de dor-nas-costas que antes, enviando mil pedidos de atestado ao Casu. Os professores comentavam a falta de um quorum mínimo para começar as aulas. De forma que era completamente indispensável recomeçar o processo.

Grupos ambientalistas logo apareceram para reclamar do gasto de madeira que estava sendo feito com tal reforma. Além da confecção das carteiras em si, ainda havia o CO2 expelido pelos caminhões responsáveis pelo transporte do material, sem contar a queimada do CU, que gerou tanto desperdício de madeira quanto emissão de CO2. O melhor seria reaproveitar as carteiras já existentes para evitar um colapso ambiental. Logo foi convocada uma comissão especial do curso de Restauração de Bens Culturais Móveis para ajudar os arquitetos e fisioterapeutas.

Saindo o primeiro protótipo da nova parceria, foi a vez da Belas Artes impor sua voz. As novas carteiras não tinham nenhuma preocupação estética, além de várias falhas na execução, completamente visíveis para um mero estudante de Escultura III. Ora, pobres alunos da Restauração, mal tem professores, são turmas novas, a culpa é do curso, da universidade. E o pessoal da Economia já alertava: esses Belas Artes estão querendo tirar vantagem da obra, fazendo criar novas vagas de estágio para eles, completamente desnecessárias, e que iriam onerar demasiadamente a obra. A universidade entrava em clima de guerra.

Foram dias de debate e conflito na reitoria. A obra continuava, mesmo sem o aval da Belas Artes, e, a cada semana, alunos de um determinado prédio tinham que se sentar no chão para assistir às aulas enquanto suas carteiras eram reformadas. Na fafich, foram ainda mais radicais. Cancelaram t-o-d-a-s as aulas até que as carteiras ficassem prontas, porque era um absurdo essa situação. Por fim, os grupos já outrora convocados, juntamente com a reitoria, decidiram que era melhor passar a condução da reforma das carteiras para a direção de cada prédio, que estaria mais apta a escolher o modelo adequado às atividades que ali eram realizadas e às demandas prioritárias, design, conforto, preservação ambiental, obesidade, canhotice, etc.

É quando o DRI volta de viagem e reclama que os projetos de novas carteiras não são pensados a partir da ótica multi-cultural da instituição. E daí entra aquela questão da imposição de valores europeus sobre alunos de diversas etnias, claramente visível mesmo nas menores decisões, subjugando negros, amarelos, indígenas, esquimós. Porque, afinal, estamos ou não em uma universidade, federal, de Minas Gerais?

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Gabriela Terenzi nasceu em 1990 cercada de grandes expectativas. Aprendeu a escrever com 3 anos, foi estrela de ballet aos 5 e tocava piano aos 7. Aos 8, entrou para o Colégio Santo Antônio, onde se formou com louvor. Passou no vestibular da UFMG em 2009. Hoje estuda comunicação social. E não se importa mais com o que esperam dela.

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